No albergue moram um punhado de gente como eu. Quando digo isso, quero que leiam: loucos.
Qualquer dia desses, quando eu estiver com mais paciência, conto sobre cada um com mais detalhes, mas hoje fico só com o Arnaldo.
Ele é o homem das perguntas.
Acho que ele inclusive enlouqueceu por isso. Para cada assunto no mundo, o cara tinha uma questão a ser levantada. E pelo que eu ouví dizer, não importava se a coisa toda fosse boba, ele sempre tinha uma crítica a fazer. O problema estava aí, ele não se contentava com a mediocridade, com aquela futilidade simples e alegre que a maioria das pessoas engolem suavemente, como algum suco melado da Tang. Não, o Arnaldo era do tipo que provava assuntos como vinhos, com aquele beicinho e tudo, e ainda tentava adivinhar a tal da safra.
De tanto cavar, acabou encontrando um buraco, e caiu lá dentro. Dentro dele mesmo, eu digo.
Acho que não adianta cavar tão fundo se você não tem alguém na superfície para te puxar para fora, de vez em quando.
Por acaso hoje ele veio me atormentar com aquelas perguntas tão reais e assustadoras. Fugí correndo. Por pouco não grito, também. Deus sabe que não tenho medo da morte, nem de ratos, aranhas, cobras ou altura. Mas eu tenho medo do Arnaldo.
Ah, desse cara eu realmente tenho medo.
Ele faz a gente pensar. Pensar mais do que deveríamos.
domingo, 21 de setembro de 2008
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