sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Sempre os primeiros

Droga, cara, você está todo ferrado mesmo. Ninguém vai aparecer, você sabe disso. Ele não vai aparecer. Se levanta, supera isso. Seu olhar triste não vai convencer ninguém. Vamos, coragem, pega teu cão e sai daqui. Vai arrumar o que fazer, algum serviço. Que tal voltar pro farol? Pois é, bem que eu poderia... Poderia voltar para o farol.
O farol é uma coisa engraçada. Todos os carros param, lado a lado, ao sinal vermelho, disputando quem vai sair em primeiro lugar. Sempre em primeiro. As pessoas têm necessidades inúteis, não é? Um carro mais veloz só serve para mostrar ao outro que você pode mais. Afinal, para que um motor que atinge 250 km/h, se o máximo que andamos dentro de uma cidade é 120km/h?. Os motores roncam, como feras que agridem umas às outras. Rinha de máquinas motorizadas. É aí que eu chego de mansinho, mão estendida em frente ao corpo, sinal de súplica e humilhação. Nem sempre olham para mim, em seus bonitos carros edição de luxo com retrovisores fechados. Alguns se dão ao cuidado de negar com a cabeça: Me desculpa, chefe. Fica pra próxima.
Sinal verde, pisam no acelerador. Às vezes, o pneu geme de agonia na fricção com o asfalto. Nesse momento já estou no canteiro central, porque a avenida não é mais um lugar seguro. Para chegar em primeiro, eles podem passar por cima de você. Sempre em primeiro.
Jhonatan estava assim, desatento. Que merda, Jhonatan! Custava olhar o semáforo?
Olha você denovo. Timóteo, trata de sair daí. Isso não te faz bem. Vá ocupar a mente. Para com essa ilusão, já fazem dois anos que aconteceu. Por causa de uma maldita bola! Merda!
Eu consigo imaginar ele correndo, saindo por esses portões de ferro do cemitério. Ele vem correndo em minha direção, me chamando denovo de pai, mudando denovo minha vida.
Passa santana, passa escorte, passa gol, passa astra. Passam todos sobre minha dor. Sempre querendo ser os primeiros, sempre desejando chegar antes e sempre atrasados. Sempre atrasando. Mas é isso mesmo, está decidido, vou para o semáforo. Vou vender balas para os assassinos de meu filho.
Sem nunca dar o troco.
Sou só eu e Escuter, agora. Somos nós contra os primeiros. Um vira-lata e um miserável contra um bando de cães de raças e seus donos entufados de ração.
Eles merecem, mas não vou dar o troco.

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