Hoje acordei denovo com aquela dor de cabeça. Era minha consciência pesada, me torturando por ter enchido a cara e dormido em qualquer lugar, tenho certeza. Só o sol das 11 conseguiu me acordar, e eu já sentia arder a pele.
Talvez quem passe por mim nunca tenha parado pra pensar, mas não gosto disso, não senhor. Eu sei que rua não é cama, e sei que guia não serve de travesseiro. Mas quando as pernas trançam e o mundo gira com cheiro de cachaça, não há como segurar. A gente nem sente a queda. Já acordei diversas vezes esfolado, com a boca sangrando e urinado. Mas que diferença faz? Eu não tenho esperança de sair daqui, mesmo. E entendo quando a madame atravessa a rua. Não é todo mundo que tem estômago.
Já se fez dia forte, o efeito da bebida dissipou, e além de uma bela enxaqueca, meu estômago voltou a roncar. Caramba, esse sol da capital judia da gente. Pelo menos se eu conseguir um lugar no albergue pra passar a noite posso fazer essa barba. Se não estiver lotado, claro.
Sorte minha que seu Mariano tem um coração mole. Pura sorte. Sempre que eu peço alguma coisa para comer no boteco ele faz cara feia, olha pra minha roupa, manda eu sair do estabelecimento dele ameaçando ligar pra polícia, e logo vêm correndo atrás de mim com uma fritura amanhecida e um copo de suco daquelas máquinas coloridas. Típico paulistano metido a durão...
Preciso arranjar alguma coisa pra fazer, senão voltam as memórias, essas memórias que me perturbam. É tudo meio confuso, difícil de entender, ainda mais com toda essa dor cortando meus pensamentos feito navalha. Minha cabeça já não é tão boa, depois da surra que tomei dos Esquim Rédis (sei lá como se escreve o nome desse pessoal), no primeiro mês fora de casa. Idiotice comum de todo companheiro de rua, misturado com uma inocência cega. Dormí no lugar errado, na hora errada, e eles me bateram diversas vezes com aquele bastão enquanto riam. Só pararam porque começou a chover. Fiquei estirado no chão, sangrando até as feridas secarem. Me encontraram na manhã seguinte. Só conseguia abrir os olhos de vez em quando para ver pequenos trechos da minha viagem, aquele dia: Ambulância, maca no hospital, um chão cheirando à criolina. Disseram-me que haviam me tirado da maca para que um outro cidadão, esse de bem, honrado, trabalhador e merecedor, pudesse ocupar o "leito de enfermos". Tinha sido baleado e morreu aquela mesma noite. Que ironia. O mendigo pobre, sujo e infeccionado viveu, apesar do coma.
Droga de sol. Eu sei que se tentar me esconder debaixo da marquise daquela loja chique, vou ser expulso.
Como se chama mesmo?
Méquidonaldis, me respondeu um rapaz que passava, achando a pergunta divertida. Méquidonaldis. Se a gente somar, tem mais disso em São Paulo do que abrigos, hospitais, casas de repousos e restaurantes populares. Lá na Berrini, tem um a cada esquina. Méquidonaldis. Isso lá é nome pra loja de lanche? Se fosse eu, chamaria de "Pança Farta", ou "Lachoneteria". Aí sim, todo mundo entenderia o recado.
Mas é melhor eu parar de pensar em comida e sair logo desse sol.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
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