Não é de todo engano dizer que Timóteo é um perdido. Ele realmente é. Digo, literalmente.
Habita em todos os lugares que chamamos de chão, e abaixo de todos os lugares que chamamos de teto. Algumas vezes, até sob o céu estende sua cama de papelão.
Timóteo rabisca estrelas e conversa com o invisível. Um doido, você diria, mas o rapaz tem os olhos limpos de quem vê as coisas com clareza. Tem o coração doído, de tanta tristeza. Sabe o amargo que a vida dá ao paladar dos injustiçados, aos desvalidos, aos que ainda insistem em viver. Timóteo é mais que um mendigo (ou vagabundo, como diriam aqueles que envergam o nariz ao vê-lo revirar o lixo), mais que um guerreiro que insiste em levantar a bandeira pelo direito de existir, mesmo quando todas as forças do mundo guerreiam contra sua própria. Mesmo quando sua armadura de trapos mal-cheirosos é manchada de sangue sob o ataque de um mal ser-humano (seria mesmo humano?). Timóteo é mais que algo, é um alguém, um andarilho de pés rachados e sujos.
Caminha descalço por não ter o que calçar. Se arrasta pelos asfaltos, poeirões batidos, gramados e cascalhos, enquanto murmura suas loucuras, enquanto vive o mundo criado por tantos doidos satisfeitos, e muitos outros desnorteados. Timoteo é daqueles que rasga a voz contra o silêncio, gesticulando e rindo, dançando bêbado ao som de risos adolescentes.
Timóteo envelheceu 30 anos em dois meses.
Timóteo tem um cão, "Escuter", amarrado em uma tira de pano.
Timóteo come restos para sobreviver.
Timóteo tem um diário onde escreve o que pensa, suas paredes e sua mão, sua cabeça e seus bancos, do pixe vândalo à poesia urbana marginal. O mundo é seu caderno de viagens, e sua luta, a resistência por manter o coração pulsando alheio a todo descaso.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
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