Eu estava sentado numa das macas improvisadas como cama do ambulatório-dormitório assistindo o Fantástico num domingo à noite. Ele veio andando do refeitório, com aquela ginga de criança muito madura, mais do que deveria ser.
- Tio, tem esqueiro?
- Não, Bituca. Não fumo, você sabe.
- Tô ligado, mas só estou perguntando, mesmo. Não ia fumar nem nada, tá ligado? Eu ia só pegar emprestado porque a Joelice e o Cleumar estão querendo fazer uma fogueira lá na praça hoje.
- E como você entrou? Você não pode ficar aqui dentro, moleque. O Agenor sabe que você está aqui?
- Que Agenor nada, o Agenor é o maior paia! Pulei o muro, tá ligado? Ganhei uma maçã da tia da cozinha e agora estou saindo fora. Só preciso do esqueiro.
O fantástico gritava o enunciado de seu próximo bloco, onde seria mostrado o devotado amor de meia dúzia de mulheres finas por cães de rua. Uma delas, inclusive, mostrava com orgulho a reconstituição de uma das orelhas que foi destruída pelo ataque de um de seus cães protegidos, estressado por mals tratos. O Bituca se sentou na cama, do meu lado.
- Nossa, da hora esse pítebul, né, tio?
- Não sou seu tio, moleque.
- Eu tinha um pítebul no barraco, tá ligado? Era daqueles rédinouse e tudo, mó cara de mal. A gente dava um pneu pro bicho morder e ele detonava aquele barato. Tá ligado? Mó bicho mal.
Então a tevê gritou mais alto ainda. No meio das entrevistas, uma das mulheres começou a chorar, dizendo não entender como as pessoas podem ser tão cruéis com animais tão puros, isso é, os cachorros. Ela disse assim:
- Já tem muita gente cuidando de outras pessoas, por aí. Tem muita gente cuidando de crianças, cada dia se cria uma ong diferente para isso. Mas quem vai proteger esses animaizinhos indefesos?
Eu me perguntei a quem ela se referia como animal indefeso, se às crianças, ou aos cães. A mulher chorava, comovida e revoltada, enquanto João continuava em sua busca por um esqueiro na maca ao lado. Ele só queria um fogo para o aquecer de noite, já que não tinha mais pai nem mãe para o abraçar no frio que cai na madrugada chuvosa dessa metrópole. Talvez fumar uma pedra de crack, para quem sabe esquecer dos mals-tratos pelo qual passou, mesmo sem uma coleira.
Eu me perguntei quantas Ongs serão necessárias para tirar da rua crianças como João Vitor. E me perguntei se cada uma delas não valeria a pena. Será que nesse caso há como "pecar por excesso"?
- Bituca, aqui. Achei um esqueiro. Posso participar da fogueira? - Perguntei.
- Vamo embora, tio. É nóis.
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