Todo dia de manhã, esse gosto doce, por quinze minutos. Doce como um bom dia. Como uma promessa maravilhosamente mentirosa de um dia melhor. Me arrasto até o boteco de seu Mariano, onde se serve pão e cachaça, e me jogo sobre o balcão, com meus trapos imundos:
- Jorge, um pingado e dois chapados.
Enquanto frita a massa, penso no meu dia e no que foi o ontem. Engulo aos poucos o prazer barato, café com leite, mastigo com poucos dentes o pão frito amanhecido e penso que se existe igualdade, ela é brindada com pingado e pão na chapa.
Do outro lado do balcão, um menino bonito se empertiga. Fone de ouvido, pasta com currículos e uma camisa passada, virando o seu copo com pingado. A garota gorducha também toma. O dono da alfaiateria (bem que podia arrumar minhas roupas) não deixa passar a vez. Dona de casa, secretária, altos e baixos. Todos tomando juntos a bebida da manhã.
Poderia ser uma cena comum, mas poucos comem na companhia... Na minha companhia.
É, não posso deixar de rir pela ironia.
Limpo minha boca com a manga, suja da casca do pão. Alguém que eu conheço já chamou isso de bromato.
O pingado não pede RG.
Mergulho a massa, que sobe uma pasta. A garota faz cara de nojo, mas não fala nada.
Eles vão ter que aturar, porque agora sou eu e o tal do bromato. Finalmente faço parte de algo. Mesmo que por instantes, não estou mais sozinho nesse mundo. Chegado o fim do prazer, salto do banco redondo rumo à rua; rumo ao destino de papel e papelão. Pago o garçom com duas moedas de vinte e cinco, torcendo conseguir, essa tarde, pelo menos mais duas para amanhã.
Carrego minha carriola, pedindo passagem. O gosto ainda na boca, perguntando o que seria de mim sem meu sorriso matinal, sem pão, sem pingado, sem essa pequena emoção.
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