segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Paixão matinal

Todo dia de manhã, esse gosto doce, por quinze minutos. Doce como um bom dia. Como uma promessa maravilhosamente mentirosa de um dia melhor. Me arrasto até o boteco de seu Mariano, onde se serve pão e cachaça, e me jogo sobre o balcão, com meus trapos imundos:
- Jorge, um pingado e dois chapados.
Enquanto frita a massa, penso no meu dia e no que foi o ontem. Engulo aos poucos o prazer barato, café com leite, mastigo com poucos dentes o pão frito amanhecido e penso que se existe igualdade, ela é brindada com pingado e pão na chapa.
Do outro lado do balcão, um menino bonito se empertiga. Fone de ouvido, pasta com currículos e uma camisa passada, virando o seu copo com pingado. A garota gorducha também toma. O dono da alfaiateria (bem que podia arrumar minhas roupas) não deixa passar a vez. Dona de casa, secretária, altos e baixos. Todos tomando juntos a bebida da manhã.
Poderia ser uma cena comum, mas poucos comem na companhia... Na minha companhia.
É, não posso deixar de rir pela ironia.
Limpo minha boca com a manga, suja da casca do pão. Alguém que eu conheço já chamou isso de bromato.
O pingado não pede RG.
Mergulho a massa, que sobe uma pasta. A garota faz cara de nojo, mas não fala nada.
Eles vão ter que aturar, porque agora sou eu e o tal do bromato. Finalmente faço parte de algo. Mesmo que por instantes, não estou mais sozinho nesse mundo. Chegado o fim do prazer, salto do banco redondo rumo à rua; rumo ao destino de papel e papelão. Pago o garçom com duas moedas de vinte e cinco, torcendo conseguir, essa tarde, pelo menos mais duas para amanhã.
Carrego minha carriola, pedindo passagem. O gosto ainda na boca, perguntando o que seria de mim sem meu sorriso matinal, sem pão, sem pingado, sem essa pequena emoção.

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